E se você fosse obrigada a olhar para tudo aquilo que passa a vida tentando esconder sobre você?
Vem cá, você olharia para um espelho no qual todo mundo que olhou para ele ficou louco? Você quer saber o que tem refletido nesse espelho? Quer saber o que isso tem a ver com você? Então vem ler.
Você já ouviu falar no Uróboro, um espelho no qual quem olha para o que ele reflete fica completamente louco?
Esse espelho está presente em parte da história do livro “Corte de Asas e Ruína”. No livro, a protagonista Feyre fez um acordo com um terrível deus antigo, chamado Entalhador de Ossos, para que ele se juntasse a ela e lutasse ao seu lado em uma grande batalha. Mas, como estamos falando de um universo feérico, em troca ele queria que ela lhe desse o Uróboro. Mas para que ela lhe desse, seria preciso que ela adquirisse o espelho. E para que ela adquirisse, seria preciso olhar para o espelho. Ver, ali, tudo o que ele tinha para mostrar, sem poder desviar os olhos nem mesmo por um segundo.
Só que havia o porém que já citei: todos que olharam para esse espelho ficaram completamente loucos.
Quem já leu ACOTAR sabe que Feyre é corajosa. E ela precisava MUITO que o Entalhador de Ossos lutasse ao seu lado na batalha. Sendo assim, Feyre encontra o Uróboro e se dispõe a olhar para tudo o que o espelho estava disposto a refletir.
Ela olhou. E viu tudo.
Ela viu tudo sobre ela. Seu tudo e seu nada. Seu lado bom e seu lado mal. Seu lado bonito e seu lado feio. Seu lado luz e seu lado sombra. Suas justiças e injustiças. Sua coragem e sua crueldade. Tudo estava exposto ali. E ela olhou. Nem por um segundo desviou o olhar do todo que compõe quem ela é.
Ela não enlouqueceu. Ao olhar para o espelho, Feyre entendeu que tudo aquilo fazia parte do que e de quem ela era. Reconheceu o bom e acolheu o mal. Gratificou-se pelo justo e perdoou o injusto. Aceitou o bonito, mas também o feio. Percebeu seu tudo e também seu nada.
Dessa forma, ela adquiriu o espelho para si sem se deixar levar pela loucura, porque Feyre conseguiu encarar tudo sobre si. E o que a diferenciou dos outros? Ela aceitou a si mesma por completo, com todas as suas contradições e dualidades. Afinal, porque uma coisa só pode ser aquilo e pronto?
Porque eu tenho que ser ou boa ou ruim? Eu não posso ser os dois?
Porque ou eu sou uma pessoa feliz ou triste? Não posso sentir os dois?
Porque eu tenho que estar certa ou errada? Não posso estar os dois?
Eu sou boa e má, triste e feliz, certa e errada. Feyre entendeu isso.
Hayes, no livro “Terapia de Aceitação e Compromisso” (2021), diz que se você é vista (por você mesma) como uma pessoa má, por exemplo, parece que a única forma de corrigir isso é deixar de ser uma pessoa. Já que, a partir do momento em que você passa a acreditar com todas as suas forças que essa é a sua única definição, nada parece restar além de ser má.
Mas sim, resta sim. Ninguém é apenas mal. Nem apenas feio. Nem apenas triste. Nem apenas cruel. Nem apenas nada. Todos nós somos duas coisas opostas entre si.
Nós somos tudo e nada dentro de todos nós.
No livro, a essência da vida é o grande caldeirão, o criador de tudo que existe hoje. Quem se aproxima dele o descreve assim. Sendo tudo e nada. Começo e fim. Ausência e presença. Morte e eternidade. Então, se essa é a essência da vida, e nós somos a vida, porque isso não se aplicaria a nós?


Concordo com Feyre. Com o tempo, fui entendendo que não existe a possibilidade de sermos bons o tempo todo. Mesmo q nossas ações sejam corretas, em algum momento nossos pensamentos, sentimentos ou impulsos nos levam para lugares menos nobres. E isso não nos torna monstros; nos torna humanos.
Acredito q a verdadeira maturidade não está em eliminar o lado sombrio, mas em reconhecê-lo para q ele não nos domine. Afinal, quem busca ser apenas luz acaba negando partes importantes de si mesmo.
Talvez o grande desafio da vida seja justamente encontrar o equilíbrio entre essas forças q habitam em nós. Entre a bondade e a dureza, a coragem e o medo, a razão e a emoção. Não para sermos perfeitos, mas para sermos inteiros.
Por isso, para mim, a bandeira da vitória não deveria ser a perfeição, mas o equilíbrio. Porque é nele q aprendemos a acolher nossas contradições sem nos perdermos delas.