O mito do Glow Up em 3 meses de sumiço e isolamento
“Suma por 3 meses, faça essa lista de coisas e volte irreconhecível” é o que disseram. E o que parece ser uma ideia ingênua, na verdade é uma cilada. E vou te contar o porquê.
A mulher que nunca se deparou com o discurso do “Glow Up” na internet, não está na internet. Afinal, não importa de qual bolha você seja, tenho certeza que a receita do Glow Up já te alcançou de alguma forma, assim como me alcançou… e eu até cheguei a cair nessa cilada.
“Suma por 3 meses, faça essa lista de coisas e volte irreconhecível” é o que disseram (ou dizem ainda, felizmente não sei). E o que parece ser uma ideia ingênua, na verdade é mais uma das milhares de ciladas que existem na internet. E vou te contar o porquê.
Hoje existe um movimento bem escancarado de hiperindividualização, no qual o mundo está supervalorizando um individualismo terrível, onde só o eu importa. E isso me perturba. Não só a mim, mas a Bell Hooks também. Ela disse que fica perturbada “pela pesada ênfase atribuída ao ‘eu’ por muitas obras new age dedicadas ao assunto, e por nossa cultura como um todo”. E o que mais me choca é que ninguém esconde essa supervalorização da produção em massa de conteúdo voltada para o “eu”, e pouquíssimas pessoas estão se importando com o fato da maioria dos conteúdos estarem esquecendo de incluir um “nós” nos discursos.
“[…] o culto ao individualismo nos levou, em parte, a uma cultura doentia de narcisismo, tão difundida em nossa sociedade” - Bell Hooks
E é aí que entramos na cilada da nossa cultura atual, difundida principalmente na internet: para você alcançar coisas como o autoconhecimento, autodesenvolvimento, cura, Glow Up e entre outros, você precisa se distanciar das pessoas. Focar apenas em você. - Eu. Eu. Eu.
E não teria como isso estar mais longe da verdade.
Semana passada eu escrevi um artigo onde falo da importância de saber quem você é, para que as outras pessoas não falem quem você é para você. Mas que, ao mesmo tempo, é na sua relação com as outras pessoas que você descobre quem você é. Confuso, né? Mas, calma, vou explicar…
Muitas vezes eu reconheço quem eu sou na minha relação com outra pessoa, não porque ela diz para mim quem eu sou, mas é na diferença entre essa pessoa e eu, que eu percebo quem eu sou. Então vamos supor que você está num lugar em que tem várias pessoas e você percebe o quão diferente elas são de você. Nesse momento, você pode acolher essas diferenças e entender quem você é. Além disso, você também consegue entender como o que você quer é diferente do que o que os outros querem. E, de forma lógica, isso também se dá com as outras pessoas, que ao olharem para você e te perceberem como uma pessoa diferente, também conseguem se entender como diferentes de você, sabendo assim quem são.
Então percebe como a sua relação com as outras pessoas pode ser muito esclarecedora no seu autoconhecimento? Ou como quando você gostaria de desenvolver alguma coisa em você, relacionar-se com alguém que já tem isso desenvolvido pode facilitar o caminho? Ou quando você está passando por algum problema, se abrir a possibilidade de pedir a ajuda de alguma pessoa, pode tornar as coisas um pouco mais leves?
Mas, para isso, as pessoas precisam lidar com uma palavra chave que foi muito repetida até aqui, mas parece que ninguém está muito a fim de ter que lidar: a diferença. É muito mais confortável lidar com alguém igual a mim, afinal de contas eu lido comigo todo santo dia, do que lidar com uma pessoa que é diferente de mim. Uma pessoa que eu vou ter que colocar as minhas engrenagens para funcionar para eu conseguir ter uma conversa, ter uma convivência básica, na qual vai ter comportamentos que, por muitas vezes, me desagradam. Que vai ter costumes que, por muitas vezes, vão de encontro com outros costumes meus, que são diferentes.
É muito mais confortável eu me isolar para tentar me desenvolver, me curar ou cortar alguém da minha vida porque ela disse ou fez uma coisa que me desagradou. (aqui não estou falando sobre aceitar o ultrapassar de limites, ok?)
Mas, me explica uma coisa… se foi uma pessoa que te ensinou como ser uma pessoa, como você vai aprender formas de interagir com o mundo sem ser com uma pessoa? E eu estou dizendo que é para fazer aquilo que as pessoas dizem para você fazer? Nãaaao. Eu estou dizendo que muitas pessoas vão passar pela sua vida e cada uma delas encontrou uma maneira de levar a vida, e na sua relação com elas você vai poder ver quais dessas maneiras funcionam mais para você. Provavelmente um pouco de cada, criando uma maneira só sua, na qual você também vai apresentar para outras pessoas.
O que somos nós, se não uma parte de todas as pessoas que passaram por nós, criando algo totalmente novo e único?
Então, eu acredito muito que o autoconhecimento, o autodesenvolvimento, a cura, o glow up… por muitas vezes, senão todas, está muito relacionado e muito vinculado à nossa relação com o outro. E é nessa parte que cito precisamente Bell Hooks, a qual diz que “raramente, se é que isso acontece, nós nos curamos em isolamento. A cura é um ato de comunhão”, uma vez que “a vida sem comunhão no amor com os outros seria menos realizada, independente da extensão do amor próprio.”
E, para finalizar, em complemento, Hayes diz que “a consciência (humana) é compartilhada”, visto que eu “começo a experimentar a mim mesmo como um ser humano consciente no momento preciso em que começo a experimentar você como um ser humano consciente. Eu vejo segundo uma perspectiva apenas porque também vejo que você vê segundo uma perspectiva.”
Pois é, será que seu glow up não teria mais sucesso sem você ter que sumir e se isolar por 3 meses?

