Seres no universo dando a vida para nos entender e você aí, querendo ser menos humana??? (uma reflexão sobre o sentir)
Hoje parece que o ideal é estar sempre regulado.
Inclusive, como psicóloga, acho muito estranho a galera da minha área que usa o termo “se regular”. Pega teu cafézinho, que eu te explico...
Ultimamente tenho notado como as pessoas tem acreditado que o ‘sentir demais’ virou um sinal de problema.
Tá se sentindo muito ansiosa? Transtorno.
Tem se sentido triste recentemente? Depressão.
Tá feliz demais? ih, você já foi ver isso? Pode ser mania ein?!
Eu estava lendo um livro de romance, chamado “Plutão ainda é um planeta?” da autora Mari Batista, que me pegou muito nesse lugar e me fez refletir sobre a maneira com a qual temos lidado com o sentir.
No livro, um ser de Plutão vem para Terra estudar nós, humanos, visto que no planeta dele as pessoas estão desistindo de viver (pois é, eu sei, pesou o clima...). Então, ele veio para a Terra com a missão de descobrir porquê os humanos são tão alto astral e tão de bem com a vida. Ou seja: o que nos motiva a viver!
Olha, nem vou entrar nos motivos obvios pelos quais os plutoninos não querem continuar com suas vidas, mas no geral até conseguimos entender logo no ínicio do livro, de forma superficial, o porquê. Afinal, eles são gerados por encomenda, seus nomes são códigos, eles tem uma jornada de trabalho de 150 horas (sendo que um dia plutonino possui 156 horas), suas alimentações são processadas e sem sabor e eu nem te contei tudo...
Mas, voltando... o Ak2Fw5 (sim, esse é o nome do divo) chega no nosso querido planeta Terra. E de começo eu suponho que ele não deve ter entendido nada. Afinal, aqui, na Terra, tem boleto, patriarcado, capitalismo, cultura da magresa, hétero top, famadores de aura e a lista só aumenta…
Porém, apesar de todas as adversidades que cosmtumamos a enfrentar e perpassar como humanos, continuamos a nos divertir, dar risada, se apaixonar, viver.
Eaí para ele, certamente, a conta parece não fechar. O que temos aqui que está em falta lá?
Ao chegar ao planeta ele se encontra com a humana Lúcia. Pois é, a diva foi escolhida a dedo para ajudar ele nessa missão... só esqueceram de avisar ela. Contudo, junto dela, ele conhece e se familiariza com o viver humano. André (nome imporvisado dado ao Ak2Fw5 para facilitar as coisas) estuda nossa rotina, nossas comidas, nossos pets... e então, ele se deu conta de que “[…] seus estudos nunca reproduziriam a grandeza das emoções (atraledas a cada uma dessas coisas), não importava quanto tempo ele tentasse. Nenhuma tecnologia estava apta para aquilo. De repente, com a chuva caindo sobre eles, André se deu conta de que queria ficar ali, naquele momento, para sempre.” (p. 87)
E não é que os defensores do feliz no simples tem um ponto?!
E é aí que se dá a virada do livro.
Ak2Fw5 (ou André) passa a compreender que nós, humanos, vivemos de bem com a vida justamente porque a gente sente.
Agora olha a ironia: opa, corta aqui pro planeta Terra. →Aqui ←sentir virou problema.
Quantas vezes você já pensou “Eu sinto demais.”, “Eu devia ser mais equilibrada.”?
Será que não estamos evitando cada vez mais entrar em contato com o sentir porque ele é desconfortável? Aqui, no planeta Terra, começamos a tratar qualquer desconforto como um defeito
Então, penso que talvez o mistério que o divo de Plutão resolveu seja o mesmo que a gente está esquecendo. Trazendo nas palavras do plutonino: nós não somos preparados para lidar com as emoções, mas, uma vez que provamos, somos ainda menos preparados para deixá-las para trás […] (p. 141)
Em síntese, sentir não é o que atrapalha a vida das pessoas. É justamente o que faz ela ter graça e o que nos torna humanos.
E quando a gente foge do sentir… não foge só da dor. Foge de si.
Bateu aí minha filha? Então segura essa ponte para a terapia e pensa: o que você anda tentando não sentir?
OBS: Preciso fazer um grande e importante adendo que quando o sentir está te impedindo de viver e está te paralizando, isso precisa de atenção, cuidado e tratamento, sim! No texto, fiz uma referência à uma crítica, de forma indireta (contudo, sendo direta agora), à patologização do sofrimento, no qual refere-se ao processo de transformar vivências (de sofrimento ou não) normais e naturais do ser humano em doenças mentais ou transtornos psiquiátricos. Essa ‘psicopatologização’ frequentemente negligencia o contexto social, político, histórico e existencial em que pessoas estão inseridas.
Divas entregam refs:
BATISTA, M. Plutão ainda é um planeta? [s.l: s.n.]. Kindle, 2020. https://www.amazon.com.br/Plut%C3%A3o-ainda-%C3%A9-um-planeta-ebook/dp/B08Q3Y98VJ
PAULO ROBERTO CECCARELLI. A patologização da normalidade. Estudos de Psicanálise, n. 33, p. 125–136, 1 jul. 2010.





